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Uma arma contra o desrespeito à população e às florestas

 BARBARA GALLI

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Em “Liberdade de informação: um estudo de direito comparado”, Toby Mendel afirma que em uma democracia é necessário a prestação de contas e a boa governança por parte dos governantes. O público tem o direito de saber quais são os atos dos seus líderes, ter uma participação ativa nos debates sobre tais atos e assim ser capaz de avaliar o desempenho do governo. Um dos meios de maior resultado para atacar uma má governança é estabelecer esse debate de maneira aberta e disponibilizando informações de qualidade.

Durante o ano de 2012, aproveitando a assimetria informacional existente entre o governo e a população, a Câmara dos Deputados aprovou a lei do Senado que estabelecia uma alteração no Código Florestal do país. O Código Florestal tem a função de preservar as florestas brasileiras além garantir a manutenção da cobertura vegetal, e a boa condição das águas e do solo. No entanto, essa alteração visava a eliminação da responsabilidade de manutenção de qualquer tipo de vegetação dentro das terras dos ruralistas, o que causaria sérios danos ambientais para o Brasil.

Para responder a essa tentativa de mudança no Código Florestal, o Greenpeace em parceria com outras organizações iniciaram uma campanha popular com o intuito de promover a idéia do desmatamento zero. A campanha coletou mais de um milhão de assinaturas de brasileiros que são contra o desmatamento das florestas a fim de levar ao Congresso uma lei de iniciativa popular contra a destruição florestal.

Já nas redes sociais, as equipes de comunicações das ONGs têm alcançado milhões de usuários e contribuindo para uma enorme visibilidade do assunto. A campanha conhecida pela frase “Veta, Dilma!” representou uma mobilização popular para que a presidente recuse o projeto de mudança na lei do Código Florestal aprovado na Câmara. O início dessa mobilização ocorreu por meio das ONGs, que decidiram usar a web para conscientizar o público leigo sobre essa tentativa do Congresso, que desrespeita não só as florestas brasileiras, como também a sua população. Além de promoverem uma ampla divulgação da campanha “Veta, Dilma!”, essas ONGs também disponibilizaram especialistas para tirar dúvidas online daqueles internautas que tinham algum interesse em entender melhor do que se tratava essa alteração na lei.

O assunto de maior polêmica girava em torno da anistia concedida a aqueles que provocassem o desmatamento, o que resultava em um grande sentimento de revolta por parte dos brasileiros, e um crime contra o meio ambiente. Seguindo o pensamento de Toby Mendel, esses especialistas que se dispuseram a explicar os pontos mais questionáveis da nova lei, contribuíram para garantir o direito a informação para esses usuários, uma vez que o acesso a tal informação pode causar importantes benefícios sociais. O movimento nas redes sociais é um grande exemplo de participação efetiva da população a fim de cobrar do governo as suas vontades.

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A popularização do tema ocorreu a partir da campanha “Floresta Faz a Diferença”, promovida pelo Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável, formado por mais de 200 organizações da sociedade civil. A participação de celebridades como Wagner Moura, Gisele Bündchen e Rodrigo Santoro em vídeos e fotos, que relatam os danos que poderiam ser causados por essa mudança, alertaram a população em geral. Anteriormente a essa extensa divulgação, o assunto se encontrava limitado a políticos e ambientalistas.

A discussão apareceu como um dos assuntos mais abordados pelos usuários do twitter, à medida que hashtags como #vetadilma e #vetatudodilma foram citadas mais de 30 mil vezes. Já entre os usuários do Facebook, fotos e vídeos sobre a campanha foram compartilhados milhares de vezes, causando uma grande repercussão. Além do perfil Veta Dilma ter sido curtido por mais de 10 mil pessoas. Essas diferentes ferramentas que surgiram com o intuito de causar ações mobilizantes em defesa dessa causa ambinetal demosntra que a comunicação ciberativista está cada vez mais ganhando espaço na sociedade.

Dênis de Moares em “Comunicação alternativa, redes virtuais e ativismo: avanços e dilemas” destaca o poder das webmídias e das redes ativistas na campanha por mobilizações visando transformações sociais. A página do Veta Dilma no facebook, representou uma nova forma de comunicação, que visava a instantaneidade e a descentralização da informação, o que muito contribuiu para o alcance da questão. Enquanto a mídia hegemônica omitia a questão, nas redes sociais o movimento ganhava força a partir do com uso de mecanismos convocatórios interativos, que são fundamentais para trazer visibilidade e mobilização para as reivindicações.

As redes sociais podem ser consideradas uma ferramenta que abriga usuários críticos e dispostos a reivindicar. Essas redes são responsáveis por promover a interação entre indivíduos com afinidades e objetivos comuns. A troca dessas informações partilhadas na internet e nas redes como o twitter e o facebook colaboraram para exercer uma grande pressão na decisão a ser tomada pela presidente do Brasil.

Assim, após sofrer forte pressão da sociedade civil, Dilma Rousseff vetou parcialmente o Código Florestal aprovado pela Câmara dos Deputados. Um dos pontos mais polêmicos da nova lei, a não obrigatoriedade de recuperação das áreas de preservação permanente pelos ruralistas, foi vetado pela presidente. A alteração proposta era vista pelos ambientalistas como uma forma de anistiar àqueles que provocassem o desmatamento. É possível dizer que esse projeto de lei representou a primeira grande derrota do governo desde a posse de Dilma, e parte dessa derrota está intimamente relacionada à ampla mobilização nas redes sociais.

Referências

DE MORAES, Dênis. Comunicação alternativa, redes virtuais e ativismo: avanços e dilemas. Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación, vol. IX, n. 2, mayo – ago. / 2007

MENDEL, Toby. Liberdade de informação: um estudo de direito comparado. Brasília, 2009.

Veta tudo, Dilma. Greenpeace Brasil, em 9 de maio de 2012: <http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Noticias/Veta-tudo-Dilma/> . Acessado em 23 de junho de 2013.

Movimento “Veta, Dilma!”, sobre o Código Florestal, vira fenômeno nas redes sociais. UOL Notícias, em 04 de maio de 2012: <http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2012/05/04/movimento-veta-dilma-sobre-o-codigo-florestal-ganha-as-redes-sociais.htm>. Acessado em 23 de junho de 2013.

RIOS, Mariana. Campanha “Veta, Dilma” invade a rede. MST, em 17 de maio de 2012: <http://www.mst.org.br/Campanha-Veta-Dilma-invade-a-rede>. Acessado em 23 de junho de 2013.

Dilma vera parcialmente Código Florestal. Carta Capital, em 25 de maio de 2012: <http://www.cartacapital.com.br/politica/dilma-veta-parcialmente-codigo-florestal>. Acessado em 23 de junho de 2013.

Fotos: https://www.facebook.com/VetaDilma

Caso Guarani Kaiowa: Uma minoria injustiçada

 BARBARA GALLI

Ato em solidariedade aos Guarani Kaiowa

 

A Internet é a responsável por abrir espaço a todos os indivíduos independente das idéias e pensamentos que acreditam. É um espaço que abriga um pouco de tudo, não é uniforme, englobando muitas expressões, a liberdade e o anseio por justiça. A internet surgiu de uma necessidade de buscar novas formas de comunicação, se distanciar das mídias convencionais e esses novos meios de comunicação apresentam alternativas para conquistar uma transformação social.

Em “A Galáxia da Internet”, Manuel Castells aborda os novos meios de socialização que surgiram com a aparição da internet. Retrata também as novas formas de participação política e de cidadania, além do engajamento em movimentos sociais por parte da população. As redes sociais aparecem para ampliar as ferramentas de comunicação. É por meio do uso do computador que os fluxos de comunicação se intensificam, gerando trocas sociais que proporcionam uma modificação na estrutura.

No Brasil, a luta dos índios guarani kaiowa pela demarcação do seu território e a sua repercussão nacional e mundial pode ser considerada um fenômeno causado pela conexão desses computadores, que além de aparelhos, também conectam pessoas. As mídias convencionais, como os jornais e revistas se esforçaram ao máximo para abafar o caso, muitas vezes colocando os índios no papel de bandidos e não no de vítimas como de fato deveria ser. Assim, a internet e as redes sociais mais uma vez assumiram o papel de divulgar e questionar os problemas da sociedade, que muitos não vêem ou se negam a enxergar. A expulsão da comunidade indígena guarani kaiowa do acampamento Puelito, que está localizado na fazenda Cambará no estado do Mato Grosso do Sul causou uma grande revolta e mobilização nas redes sociais.

Em outubro de 2012, uma carta divulgada no Twitter e no Facebook, na qual os índios manifestaram sua indignação perante a ordem de despejo de suas terras e afirmaram que preferiam ser extintos a deixar o local. Essa carta, de certo modo, sugeriu que a população indígena pudesse ser capaz de cometer um suicídio coletivo caso seus desejos de demarcação das terras não fosse atendido. O histórico desses índios mostra que as taxas de suicídios são bastante elevadas, o que pode ser um indício de que a ameaça poderia se concretizar. Diante dessas palavras, a repercussão não poderia ser outra, a população brasileira se solidarizou e se uniu a fim de protestar contra esse ato tão desumano cometido contra esses índios socialmente injustiçados.

Atores sociais, de diferentes, idades, profissão e classe social passaram a se comunicar diretamente com as lideranças indígenas, sem ser necessária intermediação. Raquel Recuero, no seu livro “Redes Sociais na Internet”, afirma que a manutenção da rede social garante que os atores sociais tenham visibilidade, e conquiste algum tipo de suporte social quando for necessário. Assim, ao publicarem a carta nas redes sociais, os indígenas esperavam aumentar a sua visibilidade e despertar o interesse de quem está fisicamente distante com a sua causa.

Apesar do extermínio dessa etnia ter sido iniciado há muito tempo, foi somente a partir da ampla divulgação nas mídias sociais que a causa ganhou destaque nacional e até internacional, em menor escala. Milhares de brasileiros urbanos aderiram à causa dos índios e iniciaram suas manifestações nas redes sociais. No Facebook, muitos usuários acrescentaram “Guarani Kaiowa” ao seu primeiro nome nos seus perfis. A intenção desses usuários não era criar uma identidade comum, mas sim passar a mensagem de que a população indígena não está sozinha na superação desse sofrimento.

O objetivo desses usuários, além de demonstrar seu apoio ao grupo indígena, é também evidenciar que estão dispostos a estabelecer um discurso em conjunto com essa população. Já no Twitter, hashtags como #SouGuaraniKaiowa  e #SomosTodosGuaraniKaiowa apresentaram um forte destaque entre as frases mais publicadas do período. No Youtube, mutiplicaram-se os vídeos que continham a frase “Sou Guarani Kaiowa”. A campanha “Eu apoio a causa indígena” iniciada nas redes sociais resultou em um documento que reuniu milhares de assinaturas entregues à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Essa onda de pressão nas redes tirou o governo da imobilidade e obrigou as instituições como o governo federal, o congresso e o judiciário a colocar a questão em pauta.  A presidente Dilma Roussef, devido à grande abrangência do caso, publicou uma nota sobre o tema, demonstrando uma preocupação do governo com o paradoxo vigente no país. Internacionalmente o Brasil defende os direitos indígenas, mas internamente desrespeita esses mesmos direitos. O Centro de Defesa dos Direitos Humanos, em reunião na Câmara dos Deputados, destacou a extrema importância dessa campanha e comoção nacional diante ao caso e procurou buscar algumas realizações concretas a fim de reconhecer os direitos dos índios e frear a violência, as injustiças e o genocídio presentes no problema da demarcação das terras.

 

CASTELLS, Manuel (2003). A galáxia da Internet. Rio de Janeiro, Zahar.

RECUERO, Raquel (2009). Redes sociais na Internet. Porto Alegre, Sulina.

DE MORAES, DÊNIS. Comunicação alternativa, redes virtuais e ativismo: avanços e dilemas. Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación, vol. IX, n. 2, mayo – ago. / 2007.

BRUM, ELIANE. “Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui”. Época, em 22 de outubro de 2012: <http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/10/decretem-nossa-extincao-e-nos-enterrem-aqui.html>. Acessado em 16 de junho de 2013.

Guarani-Kaiowá.”Uma luta que já dura um século”. Entrevista especial com Marco Antônio Delfino de Almeida. Instituto Humanitas Unisinos, em 7 de novembro de 2012: <http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/515244-essa-e-uma-luta-que-ja-dura-praticamente-um-seculo-entrevista-especial-com-marco-antonio-delfino-de-almeida>. Acessado em 16 de junho de 2013.

Foto: https://www.facebook.com/ColunaPosTVGuaraniKaiowa