O Ocupa Sampa e a apropriação da cidade: entre o Facebook e o Viaduto do Chá. *

RITA ALVES

Os últimos meses de 2011 nos trouxeram uma novidade interessante e estimulante: milhares de jovens de várias partes do mundo foram às ruas em 15 de outubro e acamparam em praças e outros espaços públicos em manifestações políticas e culturais originais em muitos sentidos. Alavancados pela crise econômica, os de Nova York ganharam visibilidade mundial; na Espanha, várias cidades receberam suas “acampadas” e também seus modos particulares de ação; em Londres as barracas se colaram à uma igreja turística; na América Latina, nem tão afetada pela crise, Bogotá e São Paulo se fizeram presentes e articuladas. Era o 15O.

As semanas que se seguiram foram intensas para estes milhares de jovens diretamente envolvidos; também para o número incontável de pessoas que apoiaram, defenderam e participaram da movimentação pela internet, especialmente pelas redes sociais digitais foram semanas especiais. Um debate foi intenso e polarizado ocupou algum espaço na grande mídia mundial, mas foi nas redes sociais digitais que as notícias e as imagens se espalhavam por meio da “cultura do compartilhamento”, e também ali é que a polarização dos posicionamentos e questionamentos foi “vivamente experimentada”, como disse Antônio Gramsci acerca das relações dos italianos com romances comerciais do século XIX.

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Peço licença para um depoimento pessoal, afinal todo cientista social “sofre” desse problema, seus objetos de estudo e referenciais teóricos e metodológicos insistem em se misturar com sua vida particular, seus interesses privados e pessoais. Naqueles dias de outubro comecei a ser afetada por informações que chegavam por meio do Facebook, vindas dos mais variados destinatários: dos estudantes, ex-estudantes e amigos, dos grupos, coletivos e movimentos que investigamos em nossa pesquisa na PUC, dos colegas de trabalho e de pesquisa (especialmente a antropóloga mexicana Rossana Reguillo, que estava em Nova York naquelas semanas e acompanhou de perto a Occupy Wall Street), dos veículos da grande mídia que se utilizam dessa rede social, dos blogs e veículos alternativos e comunitários de comunicação. Em São Paulo tomava corpo o Acampa Sampa (nome depois alterado para Ocupa Sampa), os acampados-indignados do Vale do Anhangabaú. Num ímpeto, transferi para lá as aulas de Antropologia que daria no curso de Ciências Sociais. E assim fomos experimentar uma aula pública; fomos para conhecer, trocar, colaborar e observar; e essa foi a primeira aula pública do Ocupa Sampa.

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No lugar das tradicionais marchas e passeatas, vimos no Acampa Sampa dezenas de jovens que permaneceram no Vale do Anhangabaú, sob o Viaduto do Chá, bem no centrão de São Paulo, por várias semanas. Em sua conferência no TUCA David Harvey comentou que “às vezes as cidades se tornam centros de movimentos revolucionários; podemos pensar as cidades como instrumentos pelos quais as revoluções surgem. Em Occupy Wall Street as pessoas chegavam e ficavam, isso foi o mais interessante. Devemos pensar sobre a ocupação das cidades, e não das fábricas (e meus amigos marxistas não gostam de ouvir isso)” **. Ocupar as cidades, permanecer nas ruas e nas praças, revitalizar os espaços públicos por meio da sociabilidade parece ser a grande transgressão nesta época dos não-lugares, da privatização das vidas e dos espaços de convivência, da volatilidade e da efemeridade constantes que afetam nossas relações e práticas políticas. Naquelas semanas, as dezenas (em alguns momentos centenas) de jovens que ali permaneceram vivenciaram experiências marcantes. A convivência com as diferenças (políticas, econômicas, sociais, culturais e psicológicas) provocou a invenção de novas formas de administrá-las. Uma vez decidido em assembleia e, por consenso, que os partidos políticos não teriam presença ou voz naquele  movimento, passaram a criar procedimentos, gestos e palavras que dessem conta dessas novas práticas políticas emergentes. Dentre estas práticas, chamam a atenção os rituais de alimentação que ali foram criados; a comida era gerida coletivamente, incluindo as crianças e os moradores de rua. Diariamente preparavam refeições que atendiam à diversos gostos e inclinações, com destaque para as práticas vegetarianas alinhadas aos posicionamentos ideológicos e críticos. Recebiam alimentos, água, tintas, cobertores, gás e outras necessidades vindas de simpatizantes e pequenos empresários. Multiplicavam-se as adesões, as aulas públicas e os shows. Organizaram-se em comissões e grupos de discussão temáticos. Foram visitados por americanos, ingleses e colombianos que participavam das ocupações e acampamentos em suas cidades; estes forasteiros traziam notícias e palavras de estímulo aos jovens de São Paulo e um sentimento cosmopolita pairava no ar. Vários movimentos sociais – como o dos sem-teto, o de defesa do bairro da Luz contra o projeto do governo ou o de defesa do uso da bicicleta na cidade – engrossavam a discussão com suas pautas diversificadas. O Ocupa Sampa transformou-se num lugar de encontro desses movimentos, que agora tinham que se adaptar aos modus operandi criados no dia-a-dia. Aqui, a idéia gramsciniana de uma cultura cotidiana “vivamente experimentada” ganhou um sentido radical e intenso.

Chama a atenção os usos das tecnologias digitais, especialmente das redes sociais. Meses antes, a Primavera Árabe já apontava a importância do Twitter e do Facebook na organização das intensas manifestações políticas. A Comissão de Comunicação do Ocupa Sampa montou uma pesada estrutura de informação sob o viaduto; geradores de energia, cabos, computadores, câmeras, microfones e conexões 3G que permitiam as transmissões ao vivo via internet das assembleias, shows e aulas públicas. Alimentar e responder às demandas vindas pelas redes sociais tornou-se tarefa árdua frente à intensa demanda de contatos. Se no início e durante o movimento o entusiasmo com estas ferramentas digitais empolgou os acampados e os pesquisadores do assunto, pouco a pouco começou-se a afirmar que “a revolução se dá nas ruas, e não no Facebook”. Resta agora investigarmos a real potência e as limitações dos usos das tecnologias digitais nas práticas políticas e culturais contemporâneas. Sabemos que existe aí uma novidade interessante e potente, mas também já sabemos tem temperos de “revolução de sofá” e que ela, sozinha, não significam muito para estes jovens.

Os usos sociais das tecnologias (Martín-Barbero, 2004) recolocam e amplificam a característica das comunidades online que constituíram a cultura da internet: o valor da comunicação livre e horizontal e “a formação autônoma de redes como instrumento de organização, ação coletiva e construção de significado” (Castells, 2003: 48). Nestas narrativas digitais estes jovens são agentes e sujeitos que atuam de forma a moldar estruturas sociais. São simultaneamente consumidores/receptores e produtores/emissores de idéias, de sentidos, de estéticas, formas e conteúdos.

A redes sociais online são, atualmente, expressões das redes sociais offline e, mais que isso, expressão de sua complexificação (Recuero, 2009). Ao cotidiano vivido nas ruas corresponde a constituição de uma cidade digital por meio de ciberinstrumentos (Lemos e Levy, 2010) que dinamizam a participação ativa, melhoram o desempenho de instituições e grupos juvenis, pressionam os poderes públicos e concretizam a construção de inteligências coletivas, processo tão alardeado e pouco analisado concretamente.

Reafirma-se a intima relação entre a vida online e a offline, entre o “real” e o “virtual”, como se costumava dizer nos anos 1990. O usos que estes jovens fazem dos blogs e outras redes sociais digitais mostram que estas ferramentas são o meio para se atingir os objetivos dos grupos, não são a finalidade principal do grupo. Sabemos que as práticas online acentuam as offline, não há uma contradição, pelo contrário, estão articuladas. Verificamos também que existe uma forte relação entre os usos das ferramentas digitais de comunicação e as ações territoriais locais, entre a cidade e a cibercidade, entre o local e o global em favor do empoderamento e a criação juvenis.

Referências

CASTELLS, Manuel (2003). A galáxia da Internet. Rio de Janeiro, Zahar.

LEMOS, André; LEVY, Pierre (2010). O futuro da internet. São Paulo, Paulus.

MARTÍN-BARBERO, Jesús (2004). Ofício de cartógrafo. Travessias latino-americanas da comunicação na cultura. São Paulo: Loyola.

RECUERO, Raquel (2009). Redes sociais na Internet. Porto Alegre, Sulina.

* Artigo originalmente publicado no jornal “Página em branco” do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da PUC-SP (CACS)

** Cf. Conferência de David Harvey, Teatro da PUC-SP, em 27 de fevereiro de 2012: http://www.youtube.com/watchv=qMRsV7XWKqU&feature=context&context=C3a3057cUDOEgsToPDskJudIVHgGzwumBLufakKpZj . Acessado em 25 de setembro de 2012.

Fotos: https://www.facebook.com/acampasampa

 

 

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